trauma complexo
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Nilda Carvalho

Psicóloga e Terapeuta de EMDR
CRP - 112248

Trauma Complexo e EMDR

Experiências do passado podem continuar presentes na vida adulta de diferentes maneiras.

Nem todo trauma está relacionado a um único acontecimento. Algumas experiências dolorosas acontecem de forma repetida ou prolongada, especialmente durante a infância ou dentro de relações das quais a pessoa depende emocionalmente. Nessas situações, suas marcas podem influenciar a maneira como a pessoa se percebe, se relaciona e lida com as próprias emoções. É nesse contexto que falamos em trauma complexo.

O que é trauma complexo?

O termo trauma complexo é utilizado para descrever os efeitos associados, em muitos casos, à exposição repetida ou prolongada a experiências traumáticas ou adversas, especialmente quando ocorrem em contextos relacionais e em períodos importantes do desenvolvimento.

Diferentemente de um acontecimento traumático pontual, o trauma complexo pode envolver uma sequência de experiências que afetam, ao longo do tempo, a sensação de segurança, confiança e pertencimento.

Durante a infância, por exemplo, podem existir experiências como:

  • negligência emocional;
  • abandono;
  • rejeição constante;
  • críticas e humilhações persistentes;
  • abuso emocional;
  • violência;
  • instabilidade familiar;
  • ausência de cuidado e proteção;
  • exposição prolongada a conflitos;
  • relações imprevisíveis ou ameaçadoras.

Isso não significa que toda pessoa que vivenciou uma dessas situações desenvolverá necessariamente um trauma complexo. Cada indivíduo é afetado de maneira particular, e fatores como contexto, recursos internos, relações protetoras e experiências posteriores também influenciam esse processo.

Por isso, compreender o trauma exige olhar para a história de cada pessoa em sua singularidade.

Trauma Complexo: Quando o passado continua influenciando o presente

Uma experiência pode ter acontecido há muitos anos e, ainda assim, continuar produzindo efeitos emocionais.

As experiências vividas ao longo da vida podem estar associadas não apenas a lembranças, mas também a emoções, sensações corporais, crenças e expectativas sobre nós mesmos e sobre os outros.

Uma pessoa que cresceu ouvindo que era inadequada pode chegar à vida adulta acreditando que precisa se esforçar constantemente para merecer amor.

Quem vivenciou abandono pode sentir um medo intenso de perder as pessoas, mesmo quando não existe uma ameaça concreta de separação.

Quem aprendeu que expressar suas necessidades provocava críticas ou rejeição pode ter dificuldade para pedir ajuda, dizer não ou estabelecer limites.

Esses padrões podem se tornar tão familiares que parecem fazer parte da personalidade. Em alguns casos, porém, aquilo que hoje parece uma característica permanente pode estar relacionado a estratégias que foram desenvolvidas em determinado momento da vida para lidar com situações difíceis.

Compreender essa relação pode ser um passo importante para construir novas possibilidades.

Trauma complexo e experiências na infância

A infância é um período importante para o desenvolvimento emocional. É por meio das primeiras relações que a criança começa a construir referências sobre segurança, confiança, pertencimento e valor pessoal.

Ela aprende, por exemplo:

Posso confiar em alguém quando preciso?

Minhas necessidades são importantes?

Posso pedir ajuda?

Sou digno de amor e cuidado?

Posso demonstrar o que sinto sem ser rejeitado?

Quando a criança encontra respostas suficientemente seguras para essas perguntas, desenvolve referências que podem favorecer relações mais estáveis ao longo da vida.

Quando suas experiências são marcadas repetidamente por medo, rejeição, abandono ou falta de proteção, essas referências podem se desenvolver de outra maneira. Compreender o que foi vivido pode ajudar a entender determinados padrões que continuam presentes no cotidiano.

Leia também: A infância e a teoria do apego

Trauma Complexo, apego e relacionamentos

Nossas primeiras relações influenciam a maneira como aprendemos a nos relacionar.

Uma pessoa que cresceu em um ambiente marcado por rejeição, imprevisibilidade ou ausência de cuidado pode desenvolver expectativas diferentes de alguém que teve suas necessidades emocionais reconhecidas e acolhidas.

Na vida adulta, essas experiências podem aparecer de diferentes formas.

Algumas pessoas sentem um medo intenso de abandono e precisam constantemente de garantias de que não serão deixadas. Outras aprenderam a não depender de ninguém e podem evitar intimidade ou proximidade emocional.

também quem deseje profundamente uma relação próxima, mas, ao mesmo tempo, sinta medo ou desconfiança quando alguém se aproxima.

A psicoterapia pode ajudar a investigar como as experiências vividas ao longo da vida se relacionam com a maneira como a pessoa se vincula atualmente.

Leia também: O Elo Invisível: Como o trauma infantil sustenta a dependência emocional e os relacionamentos tóxicos

Quando os padrões se repetem

Algumas pessoas chegam à psicoterapia sem se identificar inicialmente com a palavra “trauma”.

Elas procuram ajuda porque percebem que determinados padrões se repetem.

Talvez você:

  • tenha dificuldade para confiar nas pessoas;
  • sinta medo intenso de ser abandonado;
  • tenha dificuldade para estabelecer limites;
  • sinta culpa quando diz não;
  • precise constantemente da aprovação de outras pessoas;
  • tenha dificuldade para reconhecer suas próprias necessidades;
  • permaneça em relacionamentos que lhe fazem mal;
  • sinta que precisa agradar para ser amado;
  • tenha dificuldade para terminar relações dolorosas;
  • perceba que repete padrões semelhantes em diferentes relacionamentos.

Olhar para a própria história pode ajudar a compreender como esses padrões foram construídos.

O objetivo não é encontrar culpados.

É compreender o que aconteceu, como você aprendeu a lidar com aquilo e por que determinadas estratégias que foram úteis em algum momento podem continuar sendo utilizadas mesmo quando já não são necessárias.

Por que é tão difícil mudar alguns padrões?

Uma pessoa pode compreender racionalmente que merece ser respeitada e, ainda assim, sentir medo quando estabelece um limite.

Pode saber que uma relação não lhe faz bem e, mesmo assim, sentir uma angústia intensa diante da possibilidade de terminar.

Pode reconhecer que não é responsável pelos sentimentos de todos e, ainda assim, sentir culpa quando prioriza a si mesma.

Isso acontece porque o sofrimento emocional nem sempre está relacionado apenas ao que pensamos conscientemente.

Experiências passadas podem estar associadas a memórias, emoções, sensações corporais e crenças que influenciam nossas respostas no presente.

Por isso, compreender racionalmente o que aconteceu nem sempre é suficiente para produzir uma mudança.

Em alguns casos, é necessário trabalhar as experiências que continuam ativando sofrimento emocional.

Como a terapia EMDR pode contribuir?

A EMDR — Dessensibilização e Reprocessamento por Movimentos Oculares – é uma abordagem psicoterapêutica desenvolvida originalmente para o tratamento de memórias traumáticas e que possui evidências científicas importantes, especialmente para o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).

A abordagem também é utilizada clinicamente em diferentes contextos relacionados a experiências adversas e sofrimento emocional.

Em situações envolvendo experiências traumáticas repetidas ou prolongadas – trauma complexo – o tratamento precisa ser cuidadosamente planejado.

O processo terapêutico não começa pelo reprocessamento direto de memórias traumáticas. Dependendo da história e das necessidades do paciente, pode ser importante desenvolver primeiro recursos para lidar com emoções difíceis, aumentar a sensação de segurança e fortalecer a capacidade de permanecer presente diante de experiências internas desconfortáveis.

O tratamento é individualizado. O ritmo, as estratégias utilizadas e os objetivos terapêuticos são definidos considerando a história e as necessidades de cada pessoa.

Leia também: Como funciona a terapia EMDR

O que pode ser trabalhado na psicoterapia?

Dependendo da história individual, o processo terapêutico pode envolver questões como:

  • experiências traumáticas da infância;
  • negligência emocional;
  • abandono e rejeição;
  • abuso emocional;
  • relações familiares difíceis;
  • relacionamentos abusivos;
  • medo de abandono;
  • dependência emocional;
  • dificuldade de estabelecer limites;
  • sentimentos persistentes de culpa e vergonha;
  • crenças negativas sobre si mesmo;
  • dificuldades relacionadas ao apego;
  • memórias que continuam provocando sofrimento;
  • padrões repetitivos nos relacionamentos.

Cada pessoa tem uma história diferente. Por isso, o tratamento não deve partir de uma fórmula pronta, mas de uma compreensão cuidadosa da experiência individual.

É possível mudar a relação com a própria história?

Não podemos mudar aquilo que aconteceu. Mas podemos, ao longo do processo terapêutico, construir uma relação diferente com aquilo que vivemos.

O objetivo não é apagar o passado ou fingir que ele não existiu. É poder olhar para a própria história sem que ela continue te ativando e determinando todas as escolhas do presente.

Para algumas pessoas, isso significa conseguir estabelecer limites sem sentir culpa. Para outras, significa construir relações mais seguras, reconhecer as próprias necessidades ou desenvolver uma relação mais compassiva consigo mesmas.

O processo é individual e acontece no ritmo possível para cada pessoa.

Quando procurar ajuda?

Você não precisa esperar que o sofrimento se torne insuportável para procurar psicoterapia.

Se você percebe que experiências do passado continuam influenciando seus relacionamentos, suas escolhas, sua autoestima ou a maneira como lida com suas emoções, pode ser importante buscar um espaço de escuta e compreensão.

A psicoterapia pode ajudar a compreender a relação entre sua história e aquilo que você vive hoje.

A partir dessa compreensão, novos caminhos podem começar a ser construídos.

EMDR e Trauma Complexo

Meu trabalho como psicóloga clínica e terapeuta de EMDR é voltado ao atendimento de pessoas que desejam compreender e trabalhar as marcas emocionais deixadas por experiências difíceis e traumáticas.

A terapia EMDR pode fazer parte de um processo psicoterapêutico individualizado, sempre considerando a história, as necessidades e o momento de cada pessoa.

Se você sente que experiências do passado continuam presentes na sua vida atual e gostaria de compreender melhor o que está acontecendo, a psicoterapia pode ser um espaço para começar esse processo.

Você não pode mudar o que aconteceu. Mas pode construir uma nova relação com a sua história.

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Leia também: Quem sou e minha trajetória acadêmica

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